sexta-feira, 17 de junho de 2016

Novos tempos

Aqueles que sempre estiveram à minha volta, mais próximos, devem ter alguma idéia sobre a importância que o Parkour tem em minha jornada por essa vida. Acho que na verdade essa prática acaba se tornando importante para a vida de qualquer um que se atreve a explora-la profundamente, como de fato fiz. Parece que foi ontem que eu, até então um recém-embarcado na vida universitária, ousei sair de casa para imitar alguns saltos que havia acabado de assistir no Youtube. Esses vídeos mostravam uns caras franceses se deslocando pela cidade de uma forma desconhecida até então, desafiando a idéia que tínhamos sobre as capacidades de movimento que nosso corpo pode oferecer. Bom, na verdade eu não estou aqui para falar sobre o Parkour isoladamente, mas tenho sentido vontade de me expressar sobre os últimos capítulos dessa minha aventura através dessa prática. E nada melhor do que vir tirar as teias desse blog para realizar esse feito !

Há mais de um ano senti que era o momento de me afastar do Parkour, de descobrir coisas novas. Foi um ano de muitas mudanças em minha vida pessoal e profissional. Me dei conta que era tempo de observar o Parkour de longe, e isso estava bem claro para mim naquele momento. Depois de mais de uma década completamente imerso na atividade, eu ainda não havia provado da sensação de simplesmente não levar mais a sério a prática, eu nunca havia passado sequer alguns dias sem me relacionar com o Parkour de alguma forma. Mas as antigas motivações já não faziam mais sentido pra mim, e me vi dentro de uma situação em que eu não conseguia continuar fazendo o que sempre havia feito até então. Foi duro aceitar e demorou algum tempo. Na teimosia, tentei não parar, não abandonar meus projetos envolvendo a prática. Haviam pessoas que contavam comigo. Acho que nesse período decepcionei colegas e aqueles que esperavam algo de mim, pois não consegui dar meu melhor. O Parkour não só me trouxe um corpo mais apto, mas me moldou interiormente, me trouxe o desejo de me tornar alguém melhor em todos os aspectos, e me tornou de fato. Por isso, eu senti grande dificuldade em me afastar, mesmo sabendo que era um passo necessário para continuar minha jornada. Naquele momento, foi como me afastar de mim mesmo.

Quando me lembro de quem eu era antes de ingressar na atividade, eu mal consigo me reconhecer. Acho que eu era um tanto perdido sobre o que eu queria fazer da minha vida, sobre minha própria identidade. Acho que me reconheci através do Parkour e me tornei alguém mais assertivo em minhas próprias decisões. Não que eu tenha cometido somente acertos durante esses anos de treino. Na verdade cometi inúmeros erros. Já entrei em muitos debates desnecessários por acreditar que minha visão era de alguma forma superior à visão de outras pessoas. Já coloquei meu corpo em risco algumas vezes, já fui cegado pelo ego assim como muitos praticantes são quando começam a desenvolver suas habilidades.  Aprendi e ainda aprendo com cada erro que cometo no meio do percurso.Recentemente voltei a treinar Parkour com regularidade, depois de um ano longe. Nesse tempo não deixei de me exercitar regularmente e de ter um bom condicionamento físico. Por isso, essa minha volta não tem sido difícil, apesar de estar um pouco mais pesado e lento.  

Hoje, com 30 anos de idade, depois de tudo que já vivi nesse meio, me vejo em um momento de recomeço. Sinto-me íntimo novamente à prática e motivado a “recomeçar”. Uma vez li em algum lugar que às vezes precisamos nos distanciar de tudo aquilo que estamos acostumados a ter e a fazer, para que possamos nos auto avaliar, tirar o que atrapalha e manter o que é essencial. Como se pudéssemos visualizar nós mesmos do lado de fora e entender com exatidão sobre nossas atitudes e nossos caminhos. Talvez tenha sido isso que andei fazendo nesse período, mesmo sem premeditar ou calcular meus atos. Hoje, mesmo treinando e voltando a focar no Parkour, não tenho me envolvido ainda com projetos específicos, aulas ou divulgações. Por enquanto quero manter as coisas na forma simples, estar apenas como estive nos meus primeiros anos de prática, treinando, conhecendo pessoas, continuar aprendendo e evoluindo como praticante e como pessoa. Como mencionei antes, minha personalidade está muito ligada a essa prática, e sinto dificuldade em falar de mim mesmo sem falar de Parkour. Acho que esse foi o meu maior aprendizado nessa fase em que andei afastado, pude dimensionar melhor a importância que essa atividade teve e tem no meu propósito de vida. Não sei ainda o que virá pela frente, mas sei que aquilo que eu decidir fazer daqui por diante, será construído sobre uma base mais sólida e mais fiel ao meu relacionamento com a atividade.

O Parkour sempre pertenceu àqueles suficientemente ousados para explorá-lo em sua essência, vive-lo no dia-dia. Quando deixamos essa mentalidade morrer, nos desconectamos da prática, mesmo as vezes achando que não ! Esse pensamento me faz lembrar de alguns praticantes “especiais” os quais sempre admirei, tanto aqui no Brasil quanto no exterior.  Alguns deles até bem conhecidos na comunidade. Aqueles que por muitas vezes recusam estar entre os holofotes para preservarem a relação que possuem com o Parkour, abrem mão de fazerem parte de coisas “grandes” para seguirem fiéis aos seus próprios caminhos. Que possuem identidade própria e não se deixam levar por tendências momentâneas. São eles os verdadeiros canais de transmissão da prática, afinal eles são a própria prática, a ação, o verbo. Quem está nesse meio, sabe bem quem são essas pessoas. Penso que são elas o maior motivo de essa prática permanecer viva. Querendo ou não essa forma individual de ser e agir sempre representou a maior contribuição que podemos dar a comunidade do Parkour, muito maior que a formação de grupos, associações, projetos, divulgações. E hoje isso está novamente bem claro pra mim, assim como esteve à uma década atrás.

domingo, 3 de maio de 2015

O caminho da pena e da espada.


O tempo passa realmente rápido, e com ele as coisas se transformam, inclusive nossas idéias. Depois de uma década estudando sobre o significado do Parkour em minha vida, hoje posso constatar que todas as experiências pelas quais passei me trouxeram boas reflexões. Gostaria de tentar transmitir um pouco em palavras, mesmo depois de longa data sem escrever nada sobre esse universo. Tudo que você irá ler abaixo faz parte exclusivamente da minha experiência pessoal com a prática do Parkour, o que talvez não se aplique à sua realidade. Desejo que isso possa pelo menos trazer alguma reflexão, não apenas o significado dessa atividade, mas sobre a caminhada individual que todos nós fazemos através da vida.

1 - Parkour é somente uma palavra, não leve ela tão a sério.  
Por algum tempo levei essa palavra como uma espécie de lei ou regra em minha vida, tentando acreditar que era possivel compreender a pratica através de formulas pré estabelecidas e conceitos definitivos, e isso até me foi útil por um período. Parkour é percurso, é saltar, é correr, é escalar, é explorar seu próprio potencial, procurar ser alguém melhor através do movimento, considero a prática apenas uma idéia para canalizar a vontade de ser alguém mais completo e mais apto. E a verdade é que cada um pode fazer isso ao seu próprio gosto, em sua própria jornada individual, e essa é a graça de toda a coisa ! Nos altos e baixos da vida, aprendi a não me basear mais somente nessa palavra quando saio para treinar e explorar movimentos. Sim, eu salto, eu corro, escalo, mas passei a tentar ser melhor a minha própria maneira, mesmo que isso possa soar diferente daquilo que a cultura atual do Parkour costuma impor. Nos limitarmos a palavra Parkour, ou ao conjunto de idéias que ela transmite, é perder a oportunidade de explorar um universo de potencialidades que cada um de nós possuimos. Eu não estou me referindo a deixarmos de treinar aquilo que treinamos durante todos esses anos, de subir um muro, ou de transpor uma grade, para ir fazer coisas absurdamente diferentes, como tocar piano ou jogar futebol. Falo sobre re-explorar aquilo que já fazemos, sermos nós mesmos perante os obstáculos, perante as pessoas a sua volta, não apenas mais uma cópia daquilo vemos aos montes por ai quando acessamos o Youtube em busca de videos de Parkour. Para ser eu mesmo, descobri que era preciso abrir mão da palavra Parkour ou de qualquer outra palavra que poderia me formatar e me jogar em um padrão. Foi preciso encontrar as respostas dentro dos meus próprios desejos, de dentro pra fora. Hoje considero minha prática sem nome ou sem idéias fixas de movimentos, apesar de ainda "vestir a camisa" do Parkour e atuar diretamente na comunidade. Trabalho constantemente para ser forte, para ser capaz, para servir a mim mesmo e para as pessoas à minha volta, essa é a minha prática, minha busca, e subir um muro é apenas um meio. Seja a sua própria busca, esqueça os nomes.
2 - Qualquer coisa faz mal em desequilibrio.
Sim, Parkour faz mal, mas não estou falando necessariamente de levar um tombo. Estou me referindo a deixar de cuidar de outras áreas de sua vida usando o Parkour como uma válvula de escape para os problemas. Antes que me perguntem, eu não sou psicologo, mas consigo bem observar quando um praticante está levando a prática em desequilibrio com o restante das coisas em sua vida, pois eu mesmo já fiz isso por um tempo. Ser hábil em algo as vezes pode significar mais uma fraqueza do que uma força, principalmente quando seu treino não está gerando impacto positivo em outras áreas da sua vida. Precisamos aprender a reequilibrar as coisas quando elas parecem estar desequilibradas, precisamos pensar mais em nos tornarmos pessoas fortes em qualquer tipo de situação que a vida venha nos impor, não somente nos muros para escalar, ou nas grades para saltar, me refiro aos reais problemas da vida, aos nossos relacionamentos, nossas responsabilidades como irmãos, pais, filhos, como cidadãos. Não sei desde quando ser bom e forte no Parkour negligenciando todas as outras partes da vida se tornou algo positivo. Acredito que alguém forte é alguém que é capaz de cuidar de si mesmo e das pessoas a sua volta, usando suas habilidades para construir coisas positivas que poderão trazer benefícios de várias formas, para si e para os outros. E por isso, para mim, andar em equilíbrio é estar preparado para todo esse grande obstáculo que é a vida, é poder inspirar outras pessoas de várias formas, não somente através de um salto ou um movimento.
3 - Esteja preparado, a vida é uma guerra.
Conheço muitas pessoas que estão acostumadas a enxergar apenas as coisas boas e prazerosas da vida, vivem em uma espécie de bolha de paz e amor, e isso é ótimo até o ponto que te cega para as batalhas que todos nós encontramos pelo caminho em algum momento da vida. E quando os reais problemas batem na porta, essas pessoas ficam mais perdidas do que cego em tiroteio, se suicidam, enlouquecem, fogem da batalha, não sabem como agir. Se tem uma coisa que aprendi, foi que a vida se trata de uma verdadeira guerra, se quer um bom exemplo é só você parar para observar um pouco a natureza, os animais, a luta pela vida que todos nós seres vivos estamos inseridos. Ignorar isso é simplesmente abrir mão de você mesmo. Por isso precisamos estar sempre prontos, com a precisão cravada e com o climb-up reto, com nossas espadas afiadas. Estude, saiba sobre outros assuntos, seja bom em outras coisas, aprenda a lidar com os problemas do seu dia-dia de forma inteligente e eficiente, assim como você faz para ultrapassar os obstáculos no Parkour. Você não terá seus pais ou sua família para sempre, é necessário  construir sua própria armadura para se proteger, e ter sua própria espada para desbravar seu caminho, da mesma forma como no Parkour onde treinamos nossos corpos para superar obstáculos e proteger-nos dos impactos. A vida é uma guerra, e ela vai te dar rasteiras até você cair caso não aprenda a se movimentar de uma forma rápida e inteligente através dela. Vai ficar ai parado em um mundo imaginário ou vai fazer algo a respeito para lidar com o mundo real ?
4 - Aprenda com os fortes e esteja para os fracos.
Todos nós gostamos de estar perto de pessoas que nos acrescentam algo, e considero isso uma parte muito importante em nossa evolução pessoal. Muitas das minhas conquistas pessoais, principalmente no Parkour, devo ao fato de ter aprendido com as pessoas à minha volta, as quais eu considerei fortes em diversos aspéctos que eu podia e queria melhorar . Poucos se dão conta disso, mas muito do que somos hoje devemos às pessoas que estiveram à nossa volta durante o passar dos anos. Por isso precisamos estar sempre atentos aos nossos relacionamentos para não acabarmos sofrendo influências negativas e nos afundando, isso é mais sério do que parece. Ao mesmo tempo, acredito que assim como aprendemos com as outras pessoas, podemos e devemos dar continuidade a esse ciclo e também transmitir algo de bom e útil aos outros. Me lembro que no ano de 2006 um rapaz francês bem conhecido no meio do Parkour veio ao Brasil e acabamos recebendo ele em alguns de nossos treinos. A simples disponibilidade que ele nos ofereceu durante alguns dias, transmitindo todo seu conhecimento,  trouxe um grande impacto na forma como treinavamos Parkour, e isso se refletiu positivamente durante muitos anos em todo o cenário local. Naquela época nós eramos fracos na prática, e assim como pude aprender sobre Parkour com ele, também aprendi sobre estar aberto e disponivel para repassar adiante aquilo de bom que algum dia alguém me deu. Não digo que todos devem sair por ai gastando palavras para vomitar ensinamentos, mas as vezes oferecer sua simples presença é o bastante para mudar a vida de alguém positivamente.
5 - Aceite as transformações e seja forte através delas.

Considero essa questão bem interessante e tem muito a ver com a linha de pensamento do artista marcial e filósofo Bruce Lee. No Parkour, assim como na vida, é natural que as vezes tenhamos dificuldades em lidar com o momento presente, entende-lo e sabermos agir através dele de forma consciente. Muitos de  nós aplicamos essa idéia de maneira equivocada, passamos a querer sempre repetir as mesmas fórmulas na tentativa de obter os mesmos resultados do passado, queremos sempre as mesmas experiências, como se ainda fossemos as mesmas pessoas de tempos atrás. Uma grande tolice. Nosso corpo está em constante mudança, assim como nossas vidas e nossas idéias, e é importante sabermos escutar o momento presente, para agirmos em harmonia com contexto atual de nossas vidas. Vou te dizer algo, o salto que você realizou a 5 anos atrás foi algo único que nunca mais vai se repetir, e mesmo que você o faça diversas vezes estará sempre encontrando experiências diferentes e talvez suas expectativas sejam frustradas. Se até o muro depois de um tempo já talvez não é mais o mesmo, pois sofre os efeitos do tempo, mudando as caracteristicas de sua superficie, imagine o ser humano que é um ser vivo, feito de carne, osso e emoções. Mesmo que um momento não possa se repetir exatamente como gostariamos,  ainda temos o dia de hoje para descobrir novas possibilidades e criar novos momentos únicos de aprendizado e crescimento, os quais estejam sincronizados com nosso atual contexto fisico e de espîrito. Dizem que até água parada apodrece, ao contrário da água corrente, que flui e trás a vida. Por isso não esteja ai parado e apegado aos mesmos momentos do passado, flua e seja forte através daquilo que você tem hoje, se adapte ao momento presente e reinvente-se. É preciso aceitar as transformações da vida, como uma forte lesão ou o envelhecimento para podermos evoluir. Por esse motivo costumo admirar muitos atletas paraolimpicos, alguns deles são pessoas que de fato tiveram que se reinventar pra se tornarem fortes outra vez, fortes em sua própria maneira, em sua própria realidade. E isso me inspira.

domingo, 17 de novembro de 2013

The Split (A divisão) - Por Stephane Vigroux.

Recentemente o francês Stephane Vigroux, diretor da Parkour Generations e um dos pioneiros do Parkour nos anos 90, postou um artigo que reflete o sentimento de muitos praticantes no mundo de hoje. Com a autorização dele, tomei a liberdade de traduzi-lo para compartilhar com a comunidade brasileira de Parkour.

The Split (A divisão) - Por Stephane Vigroux


Sendo francês e desenvolvendo meu Parkour em Lisses com David Belle (começando em 1998) me considero alguém de sorte por ter feito parte do nascimento do Parkour. Eu tive a rara oportunidade de treinar e aprender em um tempo em que aquilo que fazíamos era completamente desconhecido para o mundo : Somente alguns jovens loucos treinando “algo’’ em uma pequena cidade. Sem o interesse da TV, dos jornais, sem as câmeras, sem a internet, ali havia somente a cidade, nossa busca por identidade, nossos medos, corpo e alma desejando desafios, autoconhecimento e crescimento.

Depois de um tempo, eu naturalmente senti o desejo de ensinar e compartilhar alguns dos conhecimentos que recebi treinando com aqueles que foram minhas grandes inspirações dentro da prática : David Belle, Sebastian Foucan e Williams Belle.

Passando esse conhecimento adiante e conhecendo as novas gerações de praticantes eu rapidamente percebi algo: O Parkour está evoluindo, mudando, e parte dele está sendo diluído. Está sendo criada uma tendência e uma mentalidade separada da original.

Eu pensei que estaria tudo bem desde que conseguíssemos manter o espírito e a essência do Parkour vivos. Tentamos sempre conservar a idéia de que nessa prática há espaço para todos nós, que somos homens e mulheres livres para pensar e fazer as coisas como desejamos. Eu costumo tentar focar naquilo que temos em comum, nas coisas que podemos compartilhar, similaridades em nossa forma de movimentar, treinar e viver. Ao invés de dividir nossa comunidade, ainda mais se considerarmos que o Parkour é, todavia algo muito recente, um movimento que ainda está em desenvolvimento.

E então, por isso, minha mensagem durante os 5-6 últimos anos foi bem voltada para a construção de uma federação ; enxergando toda a comunidade como UM só movimento que deveríamos desenvolver todos juntos. Essa intenção foi boa, eu acho, pelo menos no começo.

Muitos anos já passados, hoje posso dizer que já trabalhei perto de boa parte da comunidade mundial de Parkour. Eu tive muito tempo para observar o crescimento e a evolução dela, e por isso acabei chegando a uma conclusão, e hoje posso dizer honestamente que essa multidão “Redbullion’’ (um termo criado por Sebastian Foucan para descrever esse vírus que está diluindo nosso movimento) e aqueles que treinam para aparecer em vídeos, esses NÃO fazem Parkour ! Eles NÃO estão treinando a mesma disciplina que nós desenvolvemos na França todos esses anos.

Mesmo que os saltos sejam os mesmos em um vídeo, e visualmente seja a mesma coisa, o significado por trás desses saltos, a razão e motivação para fazê-los, o estado de espírito quando eles estão sendo feitos e a intenção por trás, são em essência completamente diferentes daquilo que fazemos. Parkour não é, e nunca foi, acrobacias aleatórias em muros. O que realmente importa, aquilo que trará benefícios ou prejuízos para cada um, é aquilo que está por trás da performance propriamente dita. Eu posso ver uma separação real ocorrendo nesse sentido com essa nova geração tentando praticar Parkour.

Deixe-me explicar o que Parkour realmente é: Parkour é uma prática baseada no movimento que ajuda as pessoas a se tornarem mais fortes fisicamente e mentalmente, os tornando seres humanos mais equilibrados. E assim, com essas bases sólidas estarão preparados para ajudar outras pessoas e a comunidade a sua volta.

É uma definição muito ampla e eu tenho certeza que muitos devem estar pensando : ‘’Beleza, esse ai sou eu, estou praticando o verdadeiro Parkour’’. Mais sugiro a você que pense por uma segunda vez. Detalhes fazem realmente a diferença. Parkour é uma MENTALIDADE. Um estado de espírito, uma cultura de trabalho duro e esforço, são essas coisas que fizeram a atividade existir em primeira instância. Sem essa mentalidade, se a prática tivesse sido criada sendo baseada somente em um terrível vazio, com eventos e mensagens superficiais representadas pela mentalidade da Redbull, o Parkour nunca teria nascido.

Mais uma vez eu repito, visualmente parece tudo a mesma coisa, mas aquilo que está acontecendo por trás de cada salto dentro da mente de cada praticante, é para mim o que define se ele está praticando Parkour ou não. É uma mentalidade que você pode encontrar em muitas pessoas e atividades diferentes, e ela é a essência do Parkour. E não o maldito salto !!

O Parkour deve ser mais pessoal, focando no trabalho interior que cada um precisa fazer para se tornar mais forte de diversas maneiras possíveis, não somente no aspecto físico. Essa é a mentalidade. E você pode encontrar essa mentalidade na pintura, na escrita, nas artes marciais, etc. Na verdade em tudo que fazemos.

Conversando com meu amigo Ido Portal recentemente, confirmei isso. Realmente não se trata daquilo que fazemos, mais COMO fazemos as coisas. Com qual intenção e estado de espírito me sinto mais próximo e me identifico com pessoas que praticam qualquer outra atividade de mentalidade similar, do que com qualquer outro tipo Redbullion que eu possa conhecer.

Quando eu navego pelo Youtube e digito ‘’Parkour’’ ou ‘’FreeRunning’’, eu não consigo me identificar ou me sentir próximo em 99.99% das vezes. Por quê? Interiormente, o que fazemos é completamente diferente. Enquanto no Parkour estamos tentando entender mais sobre nós mesmos, ganhar mais confiança, ser alguém mais feliz, ser mais forte de diversas maneiras na vida, outras parte de praticantes está alimentando seus próprios egos com performances de curto prazo que só irá os levar a mais sofrimento e, finalmente, ao fim de seu movimento e de sua boa saúde.

Há uma clara DIVISÃO entre o que praticamos agora. A palavra Parkour tem sido usada demasiadamente e equivocadamente. Tem perdido sua força e significado. A identidade do Parkour tem sido roubada e explorada. Essa nova mentalidade está hoje representando tudo que nós lutamos contra no inicio, durante a criação do Parkour. Essas grandes marcas vendendo nossa própria cultura de volta para nós mesmos, prendendo-nos no consumo de seus produtos, tentando nos possuir e abusar da imagem do Parkour para promover bebidas energéticas, cassinos, ginásios fechados...Quanto mais você seguir esta mentalidade, menos você é livre e forte.

Isso é bastante preocupante se você parar para pensar. Essa nova mentalidade é justamente o oposto daquilo que deu origem ao Parkour !! Depois de fazer um pouco de pesquisa eu encontrei um monte de pessoas "descontentes" com as campanhas maçantes de organizações como a Redbull dentro do mundo do skate e também no entre os artistas de graffiti. Puristas, talvez sim, porém são pessoas muito atentas em não serem exploradas, que promovem ações para lutar contra essa grande maquina que está roubando deles também.

Eu realmente me sinto muito triste pelo meu amigo Sebastien Foucan, aquele quem começou a se comunicar com o mundo através da expressão ‘’Free Running’’, logo depois do documentário Jump London : A definição original para essa palavra também foi perdida e devorada por esse grande parasita, e agora serve apenas para representar algo completamente diferente de sua visão.

Pense bem no que você está fazendo. Reflita sobre suas ações e movimentos. Por que você treina ? Pelo que você aceita correr riscos ? Seja honesto com você mesmo quando estiver respondendo essas perguntas. E descubra se aquilo que você está fazendo está realmente alinhado com uma filosofia positiva e significativa. Não pense que você é livre e forte por você ter realizado seu novo grande salto e colocado isso no Youtube, ou por ter conseguido um patrocínio de uma marca qualquer.

Eu estive calado até agora e talvez eu tenha perdido alguns ‘’amigos’’ do facebook com essas palavras, mas eu sinto que devo falar tudo isso; pois aquilo que nós estivemos treinando antes está morrendo e sendo substituído por uma piada. Por algo sem profundidade e significado. Eu penso muito nos praticantes sérios que existem no mundo para estar compartilhando esse pensamento, e encorajo todos vocês a estarem se expressando e falando cada dia mais alto !



quarta-feira, 8 de maio de 2013

Não quebre o ritmo


Já faz um semestre que venho tendo a oportunidade de estar ministrando aulas regulares de Parkour aqui em Brasília. Com isso, já posso perceber os avanços, as dificuldades e todo tipo de reação que um iniciante possa ter em seus primeiros passos dentro do Parkour. Para mim, ao longo desses anos de experiência, já não é uma novidade associar a progressão de uma pessoa na disciplina com sua frequência nos treinos. E é interessante observar a reação do iniciante quando ele se depara com essa realidade que é tão presente na arte de se deslocar.

Não foi uma, nem duas, muito menos três; na verdade foram muito mais vezes em que já escutei praticantes dizendo frases nesse sentido : “Nossa, parei de treinar por pouco tempo, mas parece que já estou a 1000 anos parado, estou fraco e mal consigo fazer esse salto que antes era facil’’. Escuto esse tipo de coisa com bastante frequência, na verdade eu mesmo já me deparei com essa sensação nas vezes em que voltei a treinar depois de passar duas ou três semanas ausente da prática.

Uma das primeiras coisas que digo a um iniciante é para que ele não fique muitos dias sem treinar, ou para que ele tente manter certo ritmo de treinos. Na fase inicial é comum termos a sensação de que tudo parece muito difícil ou quase impossível, é como se existisse uma muralha posta entre você e a boa prática do Parkour. De certa forma essa sensação não deixa de ser fiel a realidade se formos considerar que um iniciante deve trabalhar duro para obter uma condição física mínima a fim de desenvolver um Parkour sólido e sem grandes riscos de lesão. Porém, a verdade é que essa muralha que separa o iniciante do bom Parkour é perfeitamente escalável a todos aqueles que se dispõe a tal ação. E um dos segredos está exatamente em não ficar muito tempo longe da prática, pegar todo o aprendizado absorvido e coloca-lo em prática frequentemente.

Desculpe, mas tenho que ser sincero. Não se faz um Parkour consideravelmente sólido apenas com um treino por semana. Constantemente encontro iniciantes que não conseguem sair do 0, dar aquela arrancada, justamente por esperarem demais para voltarem ao campo de ação. Vou dar um exemplo. Imagine um bebê que está aprendendo a caminhar em pé. Agora imagine que para isso ele dispõe apenas de uma sessão de 1 hora por semana para desenvolver sua prática. Como você imagina esse bebê se desenvolvendo no ato de andar? Eu consigo imaginar que ele não irá desenvolver essa habilidade com rapidez ou talvez nunca chegue a desenvolvê-la satisfatoriamente.


A mesma coisa acontece no Parkour. É preciso aprender a caminhar na prática. Um pouco todos os dias. Não importa se você faz ou não aulas de Parkour, se você tem pouco ou muito tempo disponível em sua agenda. Não é difícil encontrar um ritmo de treinos a partir do momento que você se dispõe a sair da zona de conforto. E o mais legal de tudo é que no Parkour não precisamos depender de equipamentos ou lugares específicos. Qualquer ambiente a sua volta pode ser adaptado e utilizado para a realização de treinos, basta usar um pouco de criatividade. Nesse momento você pode ter um verdadeiro playground perto de sua casa e ainda não se deu conta disso. Saia, explore, crie, só não fique parado esperando pela próxima aula ou pela próxima vez em que seus amigos irão marcar um treino .


Acima de tudo, respeite seu corpo, se alimente bem, durma bem. Preze pelo condicionamento físico antes de começar a realizar saltos que envolvam maior impacto. Lembre-se que seu corpo é sua ferramenta de trabalho e que quanto melhor você cuida dela, mais tempo ela poderá durar.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Bonsoir

Recentemente encontrei algumas cenas antigas em meu computador - da época em que eu vivia em Nantes/França - e resolvi juntar com algumas cenas feitas recentemente fazendo assim uma breve mescla de passado e presente. As primeiras imagens (sem música de fundo) foram feitas aqui em Brasília, em Janeiro de 2013 por Manoel, praticante local. Já as imagens noturnas são as antigas e foram filmadas no ano de 2011 durante o outono francês. Essa segunda parte foi filmada toda em uma noite apenas e busquei reproduzir percursos já feitos anteriormente. Tentei pegar uma boa variedade de angulos para encontrar mais opções na hora da edição.


quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Liberdade é disciplina.


Tenho visto nos dias de hoje muitas iniciativas relacionadas ao ensino do Parkour, principalmente em território nacional. E é legal observar que os praticantes tem se preocupado em transmitir a disciplina às próximas gerações . Eu, como alguém que também se dedica a esse tipo de ação não posso deixar de contemplar todo esse movimento sem reparar na forma como ele ocorre.  Creio que assim como qualquer outra atividade, se o Parkour é passado adiante sem um mínimo de responsabilidade e comprometimento para com a atividade, acaba-se gerando situações desagradáveis, ou pior, a formação de não apenas praticantes medíocres, mas também pessoas medíocres.


No Parkour sempre houve esse discurso sobre liberdade. Não conheço um que não fale sobre Parkour sem antes falar sobre a sensação de ‘’estar livre’’ que o Parkour oferece. Eu como a maioria também me sinto livre quando estou praticando, porém não confundo esse sentimento liberdade com o desleixo. E esse é um ponto super importante quando estamos falando sobre ensinar Parkour. Pelo contrário do que muitos pregam, Parkour não é sobre sair por ai sem um mínimo de preparo buscando fazer coisas mais impressionante que os demais sob o argumento de que ‘’Parkour é livre’’. Parkour é sobre progressão gradual, disciplina, sobre longetividade. Muitos instrutores negligenciam algumas dessas etapas que são fundamentais para o desenvolvimento do praticante. Já vi instrutor aqui no Brasil dizendo abobrinhas como ‘’Antes do inicio dos treinos a coisa mais importante é saber a diferença entre Parkour e Free Running’’, ou outros que focam os treinos apenas em saltos aleatórios, com meia hora de conversa entre eles ignorando totalmente o significado de treino e o prévio condicionamento físico necessário para aquele salto.


Não acredito em um Parkour livre que não seja um Parkour que envolva disciplina, perseverança, respeito a si próprio e a seu corpo, nem acredito em uma aula de Parkour que não envolva esses aspectos. Não acredito nesse conceito de liberdade que envolva graves lesões ou mesmo lesões crônicas que forcem o praticante a abandonar sua prática com poucos anos de treino. E mais, não acredito nessa liberdade que faça com que os praticantes se rivalizem ou mesmo se desrespeitem entre si ou para com a sociedade que os cerca.

Para mim, um verdadeiro praticante de Parkour é aquele que sabe de suas limitações físicas, nem por um minuto brinca com elas por mero prazer ou para mostrar superioridade aos demais. Ele sabe como deve se portar perante a sociedade, reconhece que se quer que alguém o respeite, primeiro deve respeitar. É firme em suas decisões e não decide fazer um salto sem saber que é capaz de faze-lo. É alguém que preza não só pela força física, mas pela força mental e para isso o praticante se desafia a todo momento, ele planeja, faz metas e tem foco. Quem pratica o verdadeiro Parkour sabe que não existe treino com começo, meio e fim, o treino é a todo momento, seja de uma forma ou de outra, ele está sempre preparado. Ele não espera alguém lhe dizer o que é preciso fazer, ele mesmo sabe oque deve ser feito e não exita em se colocar em ação. Mais importante que tudo, ele sabe que a vida é um bem precioso, então ele a valoriza e com isso passa a valorizar a si mesmo.


Essas qualidades que acredito que um praticante deva ter são fundamentais para aqueles que pensam em passar o Parkour adiante. Ensinar Parkour não é sobre ensinar alguns movimentos ou brincadeiras, nem mesmo sobre passar algumas flexões, outras tantas precisões e finalizar o treino. Ensinar Parkour é mostrar um caminho para guerreiros, uma maneira de pensar e agir. É mostrar um caminho de difícil acesso mas com grandes recompensas. É mostrar que não há aprendizado sem a doação por completo naquilo que está sendo praticado. Não é possível ser um bom instrutor sem antes ser um bom praticante, e é por isso que me preocupo quando vejo instrutores querendo ensinar o caminho das pedras sem mesmo antes ter passado por lá. Pior que enganar outras pessoas é enganar a si mesmo, e isso agente aprende no próprio treino de Parkour. Ali é um terreno onde não é possível se esconder, ou é ou não é, ou 8 ou 80. Um bom instrutor de Parkour se revela mais nas coisas que ele faz, não nas que ele diz. Não digo que um instrutor deve fazer 5000 agaixamentos ou um salto super incrivel para ser bom, mas que ele deve buscar ser um exemplo a todo momento, ser fiél ao caminho escolhido. Ser o primeiro a se colocar de pé quando todos já estiverem caídos, estimular os demais e continuarem. Ser o último a beber água e o primeiro e estar pronto para continuar.


Ser um instrutor de Parkour é uma grande responsabilidade e só é possível assumir esse papel se você antes assume que você tem realmente algo de valor a ser passado. É preciso até mesmo saber parar de exercer esse papel quando necessário, pois nem sempre temos todas as respostas. Ensinar Parkour não é apenas ensinar um método de se movimentar, é mostrar um método para a vida.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Ser forte para não ser tão útil.


Durante minha vida tive a oportunidade de conhecer e me envolver com pessoas de diferentes nichos sociais. Desde aqueles com muitos recursos até aqueles que lutam para viver com o pouco que tem. Dentro da esfera do Parkour nunca foi tão diferente, há os que têm muito e os que têm pouco. Porém constato aqueles que fazem muito com a pouca habilidade que possuem, também aqueles que não conseguem encontrar uma utilidade com toda a força e técnica que lhes sobram.

Quem me conhece sabe que sempre enalteci o termo ‘’Ser forte para ser útil’’, até mesmo quando eu ainda não entendia bem seu significado e o interpretava de forma errônea.  Me lembro que no inicio esse termo me servia de combustível para sempre estar treinando de forma mais intensa. Acreditava que em algum momento aleatório todo esse ganho físico e mental poderia me servir para algo construtivo. Mesmo assim ainda não conseguia visualizar a real utilidade para treinar tanto, simplesmente o fazia. 


A verdade é que eu tinha sede por descobrir tudo aquilo que eu poderia fazer com meu corpo dentro da atividade e isso alimentava meu desejo por treinos de repetições. Não havia sentido ir para um treino, fazer alguns saltos, algumas subidas de muro e voltar para casa. Para mim não era um treino se não houvesse um foco em algo que me fizesse gastar horas apenas moldando aquele determinado movimento, ou determinada técnica. Por muitas vezes passei do meu limite, não me respeitei, vieram dores crônicas, stress muscular, distenções e até hoje meu corpo paga por alguns desses treinos que fiz. Mesmo assim eu continuava me questionando e tentando encontrar uma real utilidade na minha vida para eu estar fazendo todo aquele esforço.

Não faz tanto tempo que minha visão sobre isso começou a clarear um pouco e tive algumas conclusões a respeito desse tema. Quando eu ainda vivia na França eu via uma real necessidade de falar o idioma francês pois se eu não aprendesse iria realmente passar muitas dificuldades. Me vi em uma situação sem muita escolha. Eu nunca escolhi aprender esse idioma, ele um dia simplesmente bateu a minha porta e falou que teria que entrar de qualquer forma. Naquele período acabei me desenvolvendo através desse novo idioma com a ajuda da minha esposa, com isso passei a me comunicar naturalmente com a população local facilitando minha adaptação. Quando voltei ao Brasil no ano passado, decidido a me estabelecer por aqui, simplesmente deixei o francês de lado. Não é mais uma necessidade, não é mais tão útil para minha vida como era antes. Contudo, ainda consigo praticar um pouco com minha esposa às vezes, de certa forma é um pouco inevitável pelo fato de essa ser a lingua materna dela.

Homem forte ?
Homem forte .
                                                                   
Depois que comecei a agir de forma realmente útil na minha vida sinto que muitas coisas mudaram, inclusive meu porte físico. Menos massa muscular, mais resistência. Sinto que tenho aprendido a treinar de uma forma um pouco mais inteligente que antigamente, mas claro, sem deixar o espirito guerreiro de lado. Penso que se puxar e se desafiar é fundamental para a mente e para o espírito e por isso ainda crio treinos com repetições, desafios envolvendo saltos, ainda treino para ter força e explosão, mas sinto que hoje não passo do ponto em que acho realmente necessário para meu corpo e para minha vida. Não faço esses treinos por fazer, nem a todo momento, eu penso no que realmente é importante para mim antes de entrar em cena. Depois que comecei a dar aulas de Parkour aqui em Brasília sinto a necessidade de passar uma visão de Parkour mais ampla, menos elitista, menos engessada e mais funcional. Quero que cada um que venha aprender Parkour comigo, aprenda primeiro a saber sobre si mesmo e suas limitações. Não quero ser sempre a pessoa que irá dize-los em que momento parar e até onde devem ir, quero que cada um deles aprenda a se guiar dentro da prática e descobrir seu suficiente. Afinal, o Parkour não é nada mais que isso, a descoberta da autonomia ou a auto-descoberta.

Eu concordo que tudo é um processo natural e que as coisas acontecem em seu determinado tempo. Quando eu iniciei meus treinos, por exemplo, não tinha nenhuma idéia disso tudo e só queria ser bruto, sem uma razão clara para isso. Mas nunca deixei de me perguntar ‘’Para que isso tudo realmente me serve?``.  As vezes observo praticantes já com muitos anos de treino nas costas que não conseguem utilizar essa experiência para construir algo realmente útil em suas vidas. A falta de questionamento e de iniciativas úteis fazem com que muito potencial seja simplesmente jogado ao ralo. Por um outro lado observo muitos praticantes com pouco tempo de treino, pouco desenvolvimento dentro da atividade, mas que já encontraram um propósito ou uma utilidade. Sabem aplicar o pouco que tem em suas vidas e desenvolvem boas idéias.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Parkour Kids Brasília

Recentemente produzi uma rápida chamada em video para as aulas de Parkour infantil aqui em Brasília.Tem sido uma experiência incrivel lidar com esses pequenos através do Parkour. É realmente instigante perceber o desbloqueio mental que eles possuem para efetuar movimentos do Parkour. Penso que se toda criança fosse estimulada desde criança a saltar, escalar, correr, rolar, efetuar movimentos naturais que começam a florecer em seus corpos, talvez viveriamos uma sociedade onde o medo não estivesse presente de forma intensa como é hoje. Fica ai a dica.


quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Momento Parkour 2 - The Dark Night Rises

Há algumas semanas atrás fiz uma postagem sobre o filme ''O senhor dos anéis - A sociedade do anel", onde percebi um momento do filme em que o Parkour de alguma forma estava presente (Você pode conferir o post aqui). Decidi dar prosseguimento a essa idéia e criar uma série de postagens com o objetivo de identificar o "Momento Parkour" em longa-metragens e super produções hollywoodianas. Hoje trago uma observação sobre o filme Batman - The Dark Night Rises de Christopher Nolan e estrelado por Christian Bale (Bruce Wayne).



Bom, aos Parkourzeiros de plantão que já assistiram a esse filme creio não haver dúvidas de qual é o momento em que o Parkour está presente de forma mas escandalosa. Eu acredito que esse momento começa exatamente quando Bruce Wayne é mandado a prisão de Black Gate pelo vilão Bane. Ali ele se encontra com uma lesão grave nas costas adquirida em confronto direto com o principal vilão da trama e é praticamente decretado seu fim. É quando ele acaba descobrindo que há uma única forma de escapar da prisão : Escalando os muros desse grande e profundo poço que é Black Gate. 

A partir desse momento Bruce começa um trabalho para se reerguer, primeiro concertando suas costas com a ajuda de um companheiro de prisão, depois fazendo um trabalho de fortalecimento do corpo. Ali percebe-se o empenho do personagem para estar preparado ou apto para a escalada de fuga, uma mentalidade que é indispensavel a qualquer praticante de Parkour que deseja efetuar um movimento ao qual ainda não está preparado. Acredito que esse momento de lesão seguido da re-composição física e mental é muito presente na vida de um atleta, e com um praticante de Parkour não poderia ser diferente. É preciso haver sempre motivação e empenho para voltar ao nível desejado.


Logo após sua recuperação física, Bruce Wayne efetua sua primeira tentativa de fuga. Amarrado a uma corda para servir de segurança o personagem segue escalando em direção ao topo do poço. Ele chega a uma parte do percurso em que precisa efetuar um salto de uma plataforma a outra para continuar seu caminho. No Parkour esse tipo de salto que é mostrado chamamos de ''Salto de Braço'', ele consiste em saltar de um ponto X a um outro Y e usar os braços para se agarrar ao ponto de aterrissagem. Apesar de não ser detectavel uma movimentação técnica do Parkour no salto de Bruce, é realmente instigante a cena para qualquer um que já praticou o Parkour pois é um salto que envolve uma grande altura e aparentemente consideravel distancia. Ao falhar em sua primeira tentativa o excêntrico bilionário é salvo pela corda que ele havia amarrado como segurança caso caisse. Mesmo que não fosse um salto com grande distancia sabemos que o fato de haver um abismo abaixo gera um desafio mental muito grande pois qualquer erro pode significar a morte. E é ai que entra a parte em que considero a mais legal de toda essa sequencia.






Depois de assistir através de uma tela na prisão (que prisão chique) o caos que Bane estava aprontando na cidade de Gotham, Bruce se enfurece e decide ir para sua segunda tentativa de escalada. Considero como o ''Momento Parkour'' toda a sequencia pois até os diálogos apresentados são reflexões que costumam ser feitas pelo Tracer ou Traceuse. Nesse momento em que Bruce Wayne está dominado pela raiva e faz uma de suas sessões de abdominais ele é avisado pelo seu companheiro de cela: "O salto para a liberdade não requer força'', ''A sobrevivência é o espírito da alma'', ''O medo é o fracasso''. Mas a ira de Bruce era maior e ao tentar escapar pela segunda vez, nem à plataforma ele chega, é logo derrubado pelos paredões do poço mas salvo pela corda que o amarrava mais uma vez. Trazendo isso para o mundo real, nos momentos em que vou enfrentar um novo salto no Parkour eu sempre busco limpar minha mente e focar apenas naquilo que interessa, o salto. Sentimentos como o exesso de medo, a raiva, ou até mesmo o exesso de confiança podem acabar te derrubando durante a execução de alguma técnica no Parkour. Sentimentos desse tipo vão estar sempre presentes e cabe a você mesmo saber como reagir a eles. Muitas vezes nosso próprio potencial físico é inibido pelo nosso bloqueio mental e acredito o personagem Bruce nesse dia experimentou um pouco dessa sensação.


Bruce ficou desacordado após sua ultima tentativa, e ao despertar começa um novo diálogo com seu companheiro de cela. Ele mostra ao Batman que para liberar seu real potencial de ação era necessário que ele voltasse a ter medo. É nessas horas que lembro que o medo tem um papel super importante na vida de um ser humano. Acredito que esse sentimento é inerente a todos nós (aquela famosa frase "quem tem cú tem medo''), mas o exesso ou a ausência desse sentimento podem ser prejudiciais. Percebo que aqueles que aprendem a controlar ou canalizar o medo tem seus caminhos bem sucedidos, e acredito que era essa a mensagem que o velho queria transmitir a Bruce durante a história. O medo precisaria voltar ao Batman para que ele ativasse seu instinto de sobrevivencia e manifestasse o real potencial de seu corpo. E para isso era preciso fazer a escalada sem a proteção da corda. O Cavaleiro das Trevas topa o desafio e decide tentar a escalada mais uma vez, mas dessa vez sem a corda para lhe dar segurança. Ao som do grito ''ressurgir'' cantado em alto e bom tom pelos companheiros de prisão Bruce Wayne chega novamente até o maior desafio da escalada, o salto de braço. Nesse momento surgem morcegos por toda a parte, para simbolizar o medo de Bruce (quem conhece a história do Batman, sabe que o morcego é algo que Bruce Wayne teme desde a infancia). Ao visualizar o salto Sr. Wayne então fecha os olhos e se concentra para o movimento, creio que tentando canalizar sua força para atingir seu objetivo. Ao ao serem abertos, os olhos de tigre focam o salto e seu corpo explode em direção a segunda plataforma até que seus braços agarram firme o concreto deixando seu corpo dar o balanço de chegada. Estava feito assim o salto ''impossivel'' descrito por Christopher Nolan em seu roteiro. Após seu exito no salto, Batman termina o restante de escalada e parte para salvar Gotham de seus inimigos.







Acredito que qualquer um que esteja inserido no mundo do Parkour vai se identificar muito com essa sequência pois esses elementos que citei acima estão também presentes no cotidiano de qualquer Tracer, ou mesmo qualquer atleta em geral. Particularmente achei bem legal toda a trilogia do Batman de Nolan e também essa idéia de tentar trazer o super herói mais para perto da realidade. Acredito que só faltou mesmo alguém do Parkour para coreografar melhor esse salto. Mesmo assim não perdeu seu brilho nem sua mensagem, fica ai a dica de filme e reflexão. Bons treinos.






quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

999, 1000 e 1001.

Obs:  Esse post é uma continuação do ''1000+1 mucle-ups(planches)'' postado à alguns dias atrás. Confira aqui

Hoje, apenas três dias passados após o desafio dos 1001 muscle-ups, ainda me sinto como se fosse uma árvore após uma forte tempestade, galhos marcados pela destruição, porém, com a raiz ainda firme e fixa em seu devido lugar. Por vezes até me esqueço, mas é realmente boa a sensação de dever cumprido e até mesmo essas dores que ainda estão bem vivas pela parte superior do meu corpo (principalmente pelos braços).  Realizei minha ultima repetição ás exatas 19h00 quando o dia já se despedia e a noite começava a dar seu ar. No total foram 1001 muscle-ups em uma dezena de horas cravadas. Compartilhar essa experiência com palavras está longe de ser suficiente, longe de ser coerente e bem distante de ser alguma fração de realidade. Mas mesmo assim vou tentar descrever um pouco de como foi minha experiência nessa intensa e dura jornada de 10 horas, e para isso resolvi dividir tudo em partes :


Prévias considerações

Oficialmente o desafio começou as 6h00 do dia 23 de dezembro de 2012. A idéia era imbecil mas bem simples, fazer 1001 planches em no máximo 24 horas. Na noite anterior ao evento, eu fazia compras e preparava uma logística mínima para que pudesse me servir de suporte. Água, bebidas isotônicas, barras de cereais, frutas e pão foram algumas das coisas que priorizei, eu já sabia que não poderia comer nada que fosse muito pesado e ao mesmo tempo teria que ser algo que me desse energia. Esparadrapo e protetores para a mão eu preferi dispensar, mas por uma questão um pouco lógica relacionada ao local que escolhi para o desafio. Antes de dormir eu mudei um pouco meus planos e decidi que não iria começar às 6 horas da manhã e sim às 9 horas para que eu pudesse me sentir bem descansado.

O famoso ‘’galho do planche’’ localizado na 308 sul foi o terreno que elegi para realizar as repetições. Quem o conhece sabe que ele não é fino como uma barra comum além de ter uma textura diferenciada, fatos que não eliminam a possibilidade de calos e bolhas mas a diminui consideravelmente . E por isso resolvi não ter proteção para as mãos. Em contrapartida o plancheiro é obrigado a usar mais os pulsos e adotar uma posição mais enganchada, condição que prejudica ou causa dores em alguns. Particularmente eu sempre gostei de fazer muscle-ups nessas condições, principalmente em galhos de árvore. Além do mais, quando estive pensando nesse evento me dei conta de que eu não poderia faze-lo em um outro lugar que não fosse o nosso querido ‘’galho do planche’’ localizado na 308 sul. É como se a final da Copa do Mundo no Brasil não pudesse ser realizado em outro lugar que não fosse o Maracanã.

 

Depois de uma noite bem dormida, tomei um café da manhã bem básico apenas com algumas frutas e pedaços de pão. Fiz os preparativos finais e sai. Cheguei a 308 sul faltando uns 15 minutos para as 9h00. Para a minha surpresa, por lá já estava o Manoel e sua contagem já estava em 50 ou 70, não me lembro bem. Mas aquilo que me deixou mais feliz foi de saber que eu não estaria sozinho pois originalmente a única pessoa com quem eu estava contando de fazer junto acabou tendo problemas e desistindo alguns dias antes. Essa minha alegria de ver que eu estaria acompanhado se consolidou com a chegada dos demais: Admilton(Picolo), Rodolfo, Leonardo e Milano e Gustavo. Todos eles haviam planejado vir e fazer planches junto comigo, eu só não sabia disso! Pensava que ninguém havia animado muito com a idéia. Bom, sorte a minha, pois tinha consciência de que iria ser mais difícil estando sozinho.

Minha idéia foi tentar manter o mesmo ritmo do meu treinamento nas semanas passadas, 100 planches em 1 hora, 200 em 2 horas, 300 em 3 horas e assim por diante. Dessa forma eu chegaria aos 1000 planches em mais ou menos 10 horas. Mas eu sabia também que iria precisar comer e descansar em alguns momentos. Sendo assim bolei um plano previamente que consistia em fazer 50 repetições em no máximo 30 minutos. Se eu terminasse em mais de meia hora seria um prejuízo, mas se eu terminasse antes eu contaria esse tempo para comer ou descansar. Por exemplo, se eu terminasse os 50 planches em 25 minutos, eu teria 5 minutos para descansar , beber ou comer se eu precisasse. No caso de eu não sentir necessidade de descanso eu apenas continuaria e esse tempo-extra acumularia para ser usado depois. Mesmo com essa idéia eu tentei manter uma média de 2 repetições por minuto, contudo essa idéia não foi seguida a risca em muitos momentos. Optei por fazer séries de duas repetições seguidas, e foi assim do inicio ao fim.

O inicio

Do inicio às 9h00 até a repetição de numero 300 foi relativamente tranquilo. Eu já havia chegado a essa marca na semana anterior então para mim já era um terreno conhecido. Até ali eu não havia comido nada e bebido pouca água. As mãos estavam inteiras e eu não sentia nenhuma dor ou dificuldade para continuar. Já havia se passado 2 horas e 40 minutos desde o primeiro planche e eu havia melhorado meu tempo em 10 minutos em relação a semana passada. Apesar de ter planejado dar uma pausa maior nos 300 eu não vi razões suficientes para isso naquele momento, então decidi fazer essa pausa maior apenas quando chegasse aos 500.

O meio

Dos 300 até os 500 foi uma nova descoberta, confesso de começou a dar um certo trabalho. Eu transpirava mais, começava a sentir fome, a sede vinha com maior frequência e minhas mãos começavam a arder. Nesse meio eu comi umas duas barrinhas de cereal e a água já havia se esvaziado. Terminei os 500 faltando uns 15 minutos para as 14h00, eu estava inteiro, sem nada preocupante nas mãos apesar da ardência. Eu estava com bastante fome e meus braços já mostravam sinais de cansaço. Meus tendões abaixo do bíceps estavam um pouco doloridos, isso me fez lembrar de uma época que tive tendinite crônica nessa parte, mas agora não era uma dor nada comparável as dores daquela época. Já na metade do percurso, tirei um descanso de aproximadamente 25 minutos, foi o tempo suficiente para encher o galãozinho de água, comer um pouco das coisas que eu havia trazido e descansar. Nesse tempo eu só pensava “puts tudo isso que fiz até agora é apenas a metade do caminho, tenho que fazer isso tudo mais uma vez’’. 

Picolo e Leo foram comprar coisas para comer no mercado perto dali, então decidi pedir a eles que trouxessem um esparadrapo. Apesar de minhas mãos estarem com uma leve ardência eu já estava preocupado que isso se transformasse em uma bolha em breve. Então fiz uma proteção nas duas mãos antes de recomeçar. Era 14h10min quando recomecei as séries. Quando cheguei aos 600 resolvi tirar por completo essas proteções pois elas estavam mais me atrapalhando do que ajudando, estava tornando o movimento mais escorregadio. Minhas mãos apesar de arderem não pareciam virar bolhas, então resolvi confiar nisso e seguir.


O fim

Dos 600 até os 1001 é onde considero que houve a verdadeira guerra, principalmente psicológica. Quando faltavam ainda 400 repetições para terminar eu já estava psicologicamente abalado, as dores nos braços se intensificaram e os planches estavam mais pesados apesar de estarem retos. A ardência na mão aumentava gradualmente a cada planche, eu começava a sentir uma moleza e vontade de só ficar parado e descansar. Apesar disso eu mantive o ritmo proposto inicialmente.

Eu não me lembro muito bem em que período os meus amigos haviam parado, mas sei que eles haviam chegado em suas metas. O Leo completou 501 como se estivesse matando um Leão, me lembro de sua guerra interior ao fazer os planches finais. Me lembro também de Picolo que completou 501 de uma forma admirável. O Manoel já havia ido embora, não lembro bem em que numero ele parou mas creio que foi por volta dos 300 ou 400. Tivemos uma surpresa também do nosso ilustre amigo oldschool Thiago Brasil, ele veio e cumpriu sua meta de 100 planches, nos abençoou com sua presença e depois foi embora. Havia por ali também o jovem Gustavo que não lembro bem quantas repetições ele realizou porém creio também que ele chegou em sua meta. O Rodolfo estava com uma lesão em sua mão e por isso resolveu fazer seu desafio em forma de barras normais (pull-up), ele também realizou 501 repetições. Eu fiquei impressionado com todos, pois sei que foram até seus limites e se puxaram de verdade. Fiquei realmente muito feliz por eles.


Quando cheguei a 800, meu corpo já não me pertencia, eu estava simplesmente seguindo, continuando. Eu já não planejava mais quando eu iria beber água ou comer, eu simplesmente o fazia e voltava para as repetições. Me lembro de um momento em que uma das repetições saiu meio torta e com dificuldade, e de Rodolfo ter me olhado com uma cara de preocupação pois até ali todos os planches haviam saído retos e em boa forma.  Eu tentei me manter concentrado para continuar bem.Os planches realmente estavam bem mais pesados, mas eu tinha em mente que eu não poderia deixar meu corpo fraquejar, tinha que manter o nível de explosão mesmo que precisasse descansar um pouco mais entre as séries.

Me recordo também de um momento em que deitei e só quis ficar lá despejado ao chão, eu creio que se ficasse ali não seria muito difícil de esquecer o desafio e só dormir, foi o momento em que Leo veio e deu uma ‘’xaropada’’ comigo. Me dei conta de que não poderia amolecer, pois eu já estava quase na reta final. Faltavam 100 planches e de acordo com meus cálculos e se mantivesse aquele ritmo eu iria terminar às 19h20min, ou seja, depois do tempo previsto. Isso significava que eu estava em prejuízo e precisava correr para ganhar 20min se quisesse cumprir o tempo. Mesmo não me importando mais se iria terminar antes ou depois das 19h00 acho que meu próprio corpo reagiu a essa situação e percebi que eu realmente estava fazendo mais rápido e descansando menos entre as séries. Creio que o fato de eu saber que estava perto do fim e querer terminar logo se confundiu com a vontade de tirar esse atraso em relação ao tempo. O Leo continuou a fazer planches para me acompanhar até o final. Quando faltavam apenas 50 eu procurei ficar mais concentrado e não perder tempo a toa conversando ou bebendo água, senti que o final estava próximo e que meu corpo estava desejando mais do que nunca passar da linha de chegada.


Quanto mais o fim se aproximava, parecia que mais eu ganhava energia e velocidade. Faltavam agora apenas 3 para terminar, eu estava em 998. O objetivo era ir até 1001 e não 1000 ( A ultima repetição é sempre dedicada aos que não puderam estar presente, por isso sempre fazemos 1 a mais). Nesse momento antes do final Rodolfo veio e arriscou um planche mesmo com as mãos lesionadas para coroar aquele final, dito e feito. As ultimas repetições antes do fim vieram potentes, retas e todas as 3 em sequência. É incrível a sensação de ganhar energia quando você acha que não tem mais nada. Ela vem justamente quando você vê que está perto do fim e a vontade de terminar é grande. Eu me lembro de todos terem feito a contagem final em voz alta. Eu olhei para o relógio, eram 19h00 em ponto, um final mágico para aquilo que eu estava esperando. 

Considerações finais

Após terminado, bebi uma quantidade maior de água e fomos todos comer um açaí para festejar e nos alimentar ao mesmo tempo. Me lembro de ter entrado no carro e não ter tido muitas forças nos braços para dirigir, eu o fiz com uma certa dificuldade. Após o Açaí eu só queria estar em casa e dormir. Apesar de ter previsto e planejado muitas coisas eu não previ que não iria conseguir ter uma noite de sono após o evento. Após um bom banho eu simplesmente me deitei sem nenhum tipo de roupa no corpo, coloquei uma boa música e relaxei. A sensação de relaxamento do corpo era inversamente proporcional às dores que eu sentia. Eu já sabia que eu teria que saber me cuidar bem sozinho nesses dias. Foi uma noite bem complicada, eu dormia um pouco, e acordava com as dores latejando pelos braços, e foi assim durante toda a noite. Minha véspera de Natal foi toda na cama, comendo e dormindo. Desde ontem (25 de dezembro) já me sinto consideravelmente bem, como se tivesse feito apenas um treino puxado. Vejo que a recuperação está sendo rápida. Tenho dores musculares aparentemente normais, nada comparado aquela primeira noite de sono após o desafio.


É difícil explicar para as pessoas a razão de eu ter feito isso pois sei que elas não digerem bem quando explico. Mas eu já sou alguém acostumado com isso desde que entrei no mundo do Parkour. Talvez a melhor forma de se entender é criando uma meta muito distante e correndo para cumpri-la, não fiz nada de diferente disso.  As pessoas se espantam quando digo que não ganhei nenhum tipo de prêmio material ou algum reconhecimento concreto fazendo isso, mas fica a certeza de que mesmo havendo tal coisa isso não seria comparado com aquilo que ganhei interiormente, essa sensação de dever cumprido, de estar vivo. Me sinto como um iniciante em seu primeiro planche, exatamente a mesma sensação. Após os 1001 planches eu fiquei com um sentimento de que dava pra continuar e ver até onde meu corpo iria, mas eu já não tinha mais nada para provar a mim mesmo, estava feito e eu já me sentia preenchido por dentro.

Não sei se algum dia farei isso novamente, mas tenho o desejo de sempre estar buscando desafios e vivendo a vida através disso. Agora preciso terminar de recuperar meus corpo e continuar minha jornada pois sei que 2013 promete muitas coisas boas e novos desafios. Em breve, pretendo editar um vídeo que irá resumir como foi esse evento dos 1001 planches. Parabéns a todos os Tracers ou não-Tracers do Brasil todos que saíram de suas casas para tentar 1000  ou outras quantidades de planches. Uma boa passagem de ano a todos, bons treinos !