sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Ser forte para não ser tão útil.


Durante minha vida tive a oportunidade de conhecer e me envolver com pessoas de diferentes nichos sociais. Desde aqueles com muitos recursos até aqueles que lutam para viver com o pouco que tem. Dentro da esfera do Parkour nunca foi tão diferente, há os que têm muito e os que têm pouco. Porém constato aqueles que fazem muito com a pouca habilidade que possuem, também aqueles que não conseguem encontrar uma utilidade com toda a força e técnica que lhes sobram.

Quem me conhece sabe que sempre enalteci o termo ‘’Ser forte para ser útil’’, até mesmo quando eu ainda não entendia bem seu significado e o interpretava de forma errônea.  Me lembro que no inicio esse termo me servia de combustível para sempre estar treinando de forma mais intensa. Acreditava que em algum momento aleatório todo esse ganho físico e mental poderia me servir para algo construtivo. Mesmo assim ainda não conseguia visualizar a real utilidade para treinar tanto, simplesmente o fazia. 


A verdade é que eu tinha sede por descobrir tudo aquilo que eu poderia fazer com meu corpo dentro da atividade e isso alimentava meu desejo por treinos de repetições. Não havia sentido ir para um treino, fazer alguns saltos, algumas subidas de muro e voltar para casa. Para mim não era um treino se não houvesse um foco em algo que me fizesse gastar horas apenas moldando aquele determinado movimento, ou determinada técnica. Por muitas vezes passei do meu limite, não me respeitei, vieram dores crônicas, stress muscular, distenções e até hoje meu corpo paga por alguns desses treinos que fiz. Mesmo assim eu continuava me questionando e tentando encontrar uma real utilidade na minha vida para eu estar fazendo todo aquele esforço.

Não faz tanto tempo que minha visão sobre isso começou a clarear um pouco e tive algumas conclusões a respeito desse tema. Quando eu ainda vivia na França eu via uma real necessidade de falar o idioma francês pois se eu não aprendesse iria realmente passar muitas dificuldades. Me vi em uma situação sem muita escolha. Eu nunca escolhi aprender esse idioma, ele um dia simplesmente bateu a minha porta e falou que teria que entrar de qualquer forma. Naquele período acabei me desenvolvendo através desse novo idioma com a ajuda da minha esposa, com isso passei a me comunicar naturalmente com a população local facilitando minha adaptação. Quando voltei ao Brasil no ano passado, decidido a me estabelecer por aqui, simplesmente deixei o francês de lado. Não é mais uma necessidade, não é mais tão útil para minha vida como era antes. Contudo, ainda consigo praticar um pouco com minha esposa às vezes, de certa forma é um pouco inevitável pelo fato de essa ser a lingua materna dela.

Homem forte ?
Homem forte .
                                                                   
Depois que comecei a agir de forma realmente útil na minha vida sinto que muitas coisas mudaram, inclusive meu porte físico. Menos massa muscular, mais resistência. Sinto que tenho aprendido a treinar de uma forma um pouco mais inteligente que antigamente, mas claro, sem deixar o espirito guerreiro de lado. Penso que se puxar e se desafiar é fundamental para a mente e para o espírito e por isso ainda crio treinos com repetições, desafios envolvendo saltos, ainda treino para ter força e explosão, mas sinto que hoje não passo do ponto em que acho realmente necessário para meu corpo e para minha vida. Não faço esses treinos por fazer, nem a todo momento, eu penso no que realmente é importante para mim antes de entrar em cena. Depois que comecei a dar aulas de Parkour aqui em Brasília sinto a necessidade de passar uma visão de Parkour mais ampla, menos elitista, menos engessada e mais funcional. Quero que cada um que venha aprender Parkour comigo, aprenda primeiro a saber sobre si mesmo e suas limitações. Não quero ser sempre a pessoa que irá dize-los em que momento parar e até onde devem ir, quero que cada um deles aprenda a se guiar dentro da prática e descobrir seu suficiente. Afinal, o Parkour não é nada mais que isso, a descoberta da autonomia ou a auto-descoberta.

Eu concordo que tudo é um processo natural e que as coisas acontecem em seu determinado tempo. Quando eu iniciei meus treinos, por exemplo, não tinha nenhuma idéia disso tudo e só queria ser bruto, sem uma razão clara para isso. Mas nunca deixei de me perguntar ‘’Para que isso tudo realmente me serve?``.  As vezes observo praticantes já com muitos anos de treino nas costas que não conseguem utilizar essa experiência para construir algo realmente útil em suas vidas. A falta de questionamento e de iniciativas úteis fazem com que muito potencial seja simplesmente jogado ao ralo. Por um outro lado observo muitos praticantes com pouco tempo de treino, pouco desenvolvimento dentro da atividade, mas que já encontraram um propósito ou uma utilidade. Sabem aplicar o pouco que tem em suas vidas e desenvolvem boas idéias.

4 comentários:

Jean disse...

Achei lindo esse trecho, e não tem como não me identificar com ele.

"Depois que comecei a dar aulas de Parkour aqui em Brasília sinto a necessidade de passar uma visão de Parkour mais ampla, menos elitista, menos engessada e mais funcional. Quero que cada um que venha aprender Parkour comigo, aprenda primeiro a saber sobre si mesmo e suas limitações. Não quero ser sempre a pessoa que irá dize-los em que momento parar e até onde devem ir, quero que cada um deles aprenda a se guiar dentro da prática e descobrir seu suficiente. Afinal, o Parkour não é nada mais que isso, a descoberta da autonomia ou a auto-descoberta."

Unknown disse...

Olá Santigas, tudo bem?

Me chamo Erisson Barros (Reure), sou de Maceió-AL, praticante de Parkour e venho levando em minha cidade a iniciativa sem fins lucrativos de divulgar o Parkour em sua ampla e verdadeira esfera cultural, conceitual e física. A contribuição aleatória que acontece com cada Tracer e ao mesmo tempo agregando união, a interação de outros praticantes dentro e fora do Estado é a camisa que visto. Temos um Grupo chamado Aluí Parkour que tem esse objetivo definido de divulgar o Parkour verdadeiro, sem mesclagens, sem as metamorfoses que aconteceram por conta de Free Running.Conheci seu trabalho agora neste momento que escrevo por intermédio de uma postagem do PC Parkour (Paulo César) e confesso está admirado com tudo, com a dinâmica que utiliza para se comunicar por este Blogger para com os visitantes, praticantes. Assim como a humildade na transmissão de conhecimento. Continue o trabalho meu caro Santigas, prazer em conhece-lo!
"Havendo Homens honrados com propósitos únicos, o mundo progride com ascensão".

Abraço!

Duddu Rocha disse...

SOBERBO.

Gabriel "Shanks" Cunegato disse...

Gostei do post. O papel de um instrutor de Parkour é ajudar seus alunos a construir confiança suficiente para que eles não necessitem mais dele. O negócio é por aí mesmo, abraços do sul.